Lula é reeleito em disputa apertada, e atuação do STF divide opiniões
Petista vence Flávio Bolsonaro no segundo turno em uma campanha marcada por decisões monocráticas do Supremo e por tensão entre o tribunal e a Justiça Eleitoral
Lula (PT) foi eleito no segundo turno com 51,79% dos votos válidos, ou 64.256.232 votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), com 100% das seções totalizadas. É a primeira vez desde a redemocratização que um candidato reverte no segundo turno a desvantagem do primeiro. Em 4 de outubro, Flávio havia terminado na frente, com 47,03% contra 45,16% de Lula. Geraldo Alckmin (PSB) segue como vice.
Uma campanha com o Supremo no centro
O desfecho veio depois de uma campanha em que o Judiciário ganhou protagonismo incomum. Pré-candidatos de diferentes campos intensificaram as críticas ao STF, e a relação entre os Poderes virou um dos eixos da corrida presidencial.
A reta final do primeiro turno expôs o atrito. O ministro André Mendonça, do TSE, mandou remover postagens que ligavam a família Bolsonaro a um antigo projeto sobre o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida, e o ministro Flávio Dino derrubou a ordem, argumentando que a liberdade de expressão estava em jogo. A sequência abriu divergência sobre os limites da atuação do Supremo em casos julgados pela Justiça Eleitoral, e a defesa de Flávio chegou a pedir ao ministro Luiz Fux que suspendesse a decisão de Dino. Outras decisões de ministros trataram da validação de reajustes em benefícios sociais perto da votação e do controle sobre o uso de inteligência artificial em eventos de campanha.
A tese dos críticos
Para críticos do tribunal, o conjunto dessas decisões, tomadas de forma individual e em sentidos por vezes opostos, interferiu no equilíbrio da disputa. Quatro dias antes do primeiro turno, a crise do STF voltou a escalar, e a sucessão de decisões individuais recolocou a atuação da Corte no centro do debate. Segundo essa leitura, a insegurança sobre o que podia ou não ser dito e divulgado na campanha beneficiou o governo.
A oposição também aponta o contexto de desgaste da Corte, como o caso Banco Master. Mesmo defendendo que o Supremo “salvou a democracia” no julgamento da tentativa de golpe, Lula tentou se afastar da imagem de crises envolvendo ministros, e chegou a aconselhar Alexandre de Moraes a não deixar o caso jogar fora sua biografia.
O outro lado
Defensores do Supremo sustentam que a Corte agiu dentro de suas atribuições constitucionais, e que as decisões citadas ora favoreceram um lado, ora o outro. A decisão de Dino, por exemplo, beneficiou a família Bolsonaro. Há também análises de que o peso do tema foi limitado. Um analista ouvido pela imprensa disse que a crise do STF perdeu força como fator eleitoral, e que o eventual desgaste de Lula decorreria da associação com o tribunal. Nas fontes consultadas para esta matéria, não encontrei registro de contestação formal do resultado, e a votação foi totalizada pela Justiça Eleitoral.

